23.7.06

Ela se foi. Nem mesmo passou. Algum sentido enfim... Sentido! E tudo era caos nas lembranças de um mundo organizado em que se tinha que fazer tantas coisas. E não sabia se voltaria. Voltar a que? Nem mesmo sabia disso. Era uma linha sem rumo. Um tanto de cansaço da espera imensa. Tanta insanidade em suas razões. As de Flávio. Amigo de duas semanas, nas férias de verão em 1988.
Ele sempre o cansava com sua falação. Era uma maritaca. Mas falava como qualquer vizinha por aí. Você deve conhecer alguma.
Tinham 13. Os dois. Alguns meses de diferença.




Descobriu que, ao ver a rua, num instante segundo, que estava preso nestes três anos e alguns dias esquecidos. E que doía tanto saber de Clarice e de suas lembraças guardadas como tesouro excelso, algo além que não se pode tocar de medo. De quando se viam as luzes e tudo era. Gostaria que meus colegas não me humilhassem. Que as pessoas me achassem uma pessoa legal, mesmo não sabendo quem sou de verdade, e que pudesse confiar... Queria tanto. E tão pouco. Pois nestes três anos nada disso teve espaço, era oco. Buraco Negro. Me traz de volta pra casa: O pensamento latejava agora depois de anos de solidão gelada, num cotidiano insano. E a dor era tanta, porque só assim podia pensar... Podia talvez, agora, uma chance, amar...

20.6.06

Sempre imaginara que nunca pensava direito. Isto era da mãe. Tão presente, um saco cheio de batatas e pouca utilidade naquele momento. Não gostava de batatas fritas. Nem de nada com batatas. Sabia que de Clarice ia a tudo que vivera naqueles intensos três anos de nada em sua vida. Como algo tão sem sentido agora se tornava tão intenso?
E uma vontade imensa de ir no barzinho do Antônio e tomar um bom vinho do Porto. Já só queria. E só estava bem acompanhado de um sopro límpido e com cheiro de jasmins esquecidos pra ir até lá. O ônibus já não parecia tão assustador, quando ostentar carros era um hobbie. E gostava daquele trocador sem palavras olhando as moedas com algum pouco cuidado. E sempre olhando à frente pois que a visão lateral sempre é tão confusa e passageira. Mas gostava mesmo de sentar em bancos de costas e ver todos os rostos daquelas pessoas, suas rugas imensas e suas brilhos esquecidos nos olhos vivos. Tanta força e algum sofrimento. Era mais que um homem e um mundo. Era um homem e um mundo e um ônibus e um trocador e uma velha senhora muto gorda pra caramba.
Chegou. Não era tão distante assim. E os passos solitários já não tinham tanto sentido.
Obrigado – à moça que lhe dá algum espaço pra sair de sua cadeira. Uma palavra apenas e tudo no mundo.
O Bar Imenso no outro lado da rua de três vias. Duas indo, uma voltando de sei lá. Pequenos estilhaços de vidro no chão e um doce amargo na boca. Lembrança da vendedora de flores e da coca-cola com cachorro quente todo dia. Lembrava que isso um dia fora sua vida.
Que já tivera irmãos e uma moça cuidando deles numa casa de madeira a cair de cupins e úmidas. Pouca comida. Arroz e feijão, quem sabe um chuchu. E agora era isto tudo tão imenso.
Era hora de tomar um vinho. Tenaz de um porre e sentimento de amargar. A culpa era o fim agora. E voltava correndo. Chutando o balde. Viu Antônio e convidou que sentasse perto:
Caro, amigo! Quanto tempo, hein?
Rapaz, que surpresa! Não imaginava você por aqui a essas horas... Como vai Clarice?
Sei lá...
Tá certo (querendo dizer algo de surpresa sem tempo pra algo mais).
Deixou então a brisa ir e vir um ventinho frio e chao se esgueirando entre as pernas e braços. Viu Joana e lembrou de uma pequena conversa, pequena-grande conversa. Era só uma colega que estudou uns meses no primeiro ano do ensino médio. Era só e era tanto. Sabia mais que seus dois irmãos juntos a respeito de sua pessoa.
Correu a lhe chamar pra sentar consigo.
- Quem é você?
Só conseguira ouvir isso e um desperdício pois não sabia explicar tanta euforia e um toque a mais no braço. Que acontecera? Tocara nela tão intensamente uma vez, escancarara coração imenso. Desistiu.

23.5.06

Teve medo. Medo novamente das palavras que lhe arracanvam do chão dando nos elos loucos de vida. Que vida...
O medo era surpreendente agora. Quase um erro. Um pesadelo qualquer. Algo da ordem do imprevisto, da posse da amada. Pois já via algo de Clarice. Algo passado no presente. Um tanto de dor enchia seu coração. Um transborde. Pois, enfrentando, abrindo a porta do túnel desconhecido, e entrando, tem agora de fazer o percurso imenso. Percurso que não sabe em que vai dar. Sua fraqueza parecia a maior força agora. O que sentia era turbilhão e nebulosa. Jamais veria blocos. Não naquele instante. Um instante único trovejante.
Por onde andar daqui de agora?
Pensou naquele instante em que descobrira Clarice, se ela ainda o esperaria. Quem seria Clarice, hoje...? Uma dúvida atroz. Invasão bárbara em seu peito intrincado. Que faria. Que retorno haveria. Só lembrava das lágrimas tristes da noite anterior. Lágrimas que nunca houveram. E que sempre desejara após seu aniversário.
E tudo que queria era não-mentiras. Não se importava com a verdade. Só não sabia de mentiras.
Era tão triste...
Sobretudo, angústia prum caminho adiante.
Seguia a pé. Um pé abandonado. Pois não queria mais rumos definidos de pra onde vou. De já sei de tudo isso. Por que duvidava de qualquer coisa? Por que. Não há erro em poucas certezas. Pequenas valiosas loucuras de rodopiar, enfim... Um canto qualquer a relutar o medo em sair de sua toca nas entranhas do desengate.

19.5.06

Não estava perdido. Mas queria estar e, de alguma forma, estava sim. Mas este era seu encontro. Seu jeito de se encontrar. E começou um caminho. Um caminho além. Algo mais forte. E começara a pensar na pessoa de Clarice.
Ela nunca lhe parecera como agora. Sempre a imaginara constante, uma certeza no mundo. Uma serenidade tal, um jeito mudo. Não era nada como ele também não era.
Jamais vira Clarice realmente. E percebera isto agora. Era assustador. Tanta tristeza contaminava sua sabedoria agora. Era outra coisa e estava junto de si.
Clarice era linda. E bela. Num instante, percebia seu carinho e sua dificuldade. Dizia em palavras que esquecia. Mas era também duas, ou três; mesmo quatro. Pois também era arrogante como cactus. Espinhos já eram sua pele. Nada de muito próximo. Um toque apenas. Era, sobretudo, insana. Algo de que nunca se imaginaria pensando. E isso já era pensar. Não pensara mesmo antes. Como agora, começava a ver Clarice de alguma forma...

17.5.06

Pegou o ônibus. Talvez algum em que jamais ambarcara, mas pouco lhe importava. Sabia que quando errava o caminho podia acertar desejos impensados. E muito do que lhe interessava eram as paisagens mortas e fluidas da velocidade de ônibus em concretos. E pensava como podia não ser tão egoísta, agora que já não pensava tanto em si e na sua culpa. Já deixava tudo e matava tantas expectativas. Era o que nunca foi. Nem era.
Pareia sonhar. Mas era um novo sonho. Jeito estranhado em meio às pontes feitas sobre sua cabeça. Lembrança temível dee um esquecimento. De um medo de quando sentia que o mundo era algo tão pequeno diante de sua pequenez. Ouvira falar de coisas pequenas. Mas não preciosas. As coisas pequenas podem ser preciosas. Mas naquele momento se esquecia de lamentar e lembrava apenas de vagar. Neste mundo. Sentir em tudo um caos pequeno.
Tentava em Clarice um momento novo. Pessoas nunca são fim. Meios em sentidos de caminhos tantos. É isso aí. Não entender parecia tão bom.
Mas uma fúria se apossou... Era hora de escapar. Olhava tão fixo os prédios grandes. Pra onde iria? Um dia se perdera por ali e novamente seguira em caminhos esparsos até aquela hora, em lugar seu agora. Queria explodir quaisquer borboletas formando furacões em algum canto da Ásia. Era um jeito em si, um rancor profundo da vida. Justa ou não. Importava-lhe menos tudo isso àquilo. Apertava forte as barras de ferro. Queria que tudo estivesse em suas mãos e não queria. Nem sequer entendia o tudo que se passava em si. Nunca iria passar menos aquilo em seus pulsos insanos do que agora... A partir...
Ele gritou então assim bem alto. Cabeça erguida, garganta ao céu. Eram onze segundos de ondas puras de realidade no céu azul de poucas nuvens. Latejavam as artérias em seus braços; a jugular se expandia. Breu profundo de suas plêuras ganhava os ares abertos do mundo. Em si mesmo uma incompreensão se abria e toda a violência em si, poder sobre o mundo, agora estava aberta. Pronta pra se ver em todos os encantos do mundo.
Já num ponto de ônibus. Não sabia como havia restado ali. Nem sabera de qualquer outra coisa desde o não princípio de seu fim Enfim, encontrara ali Mãe Moema, Pai Osín e o menino. Erravam, o menino ainda mais. Saltava e rodava em minutos sem fim, entre as árvores sem medo do asfalto. Era livre e todos os hospícios tinham ali o seu embate terminante. Os pais seguiam em suas conversas sobre os arixás e os estranhos e as cidades que erravam. Perdas de territórios e o menino catalisava. Era tão comum até ao homem normal em com sua roupa normal e seu olhar normal. Era normal. Já não era normal, pois se esquecera de qualquer forma ou qualquer conduta sempre própria. Ela viajava em seus delírios sem se voltar... Era expasão, mas sempre atento ao ônibus, que quando chega logo percebe. Ela sabe muito bem que quer viajar, sair, explorar. Não quer circuitos contínuos de rotina veloz. A mãe Moema grita antes do ônibus chegar, pede ao filho proximidade, mas não segura o riso ancestral, de parentesco com tais sentimentos e ações. Pai Osín, em suas histórias e elogios aos orixás, era também afetado e afetar.
O grito, então, ia além e ressonâncias no ponto de ônibus, com gritos meus e seus. Agora, aquém, são os giros e rodopios que invadem.